Bagé / RS, Segunda-feira, 25 de Maro de 2019
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Coordenadora expõe chagas da violência contra mulher em Bagé

Acontece na casa ao lado, no centro, no bairro e na zona rural. Onde é possível desconfiar, mas também no lar daquela família que está "acima de suspeitas". A violência contra a mulher é uma realidade que precisa, diariamente, ser denunciada e combatida. "Meter a colher" pode representar a sobrevivência de uma vizinha, de uma conhecida, parente ou amiga. Mas é preciso entender que romper o ciclo da violência é o principal desafio da mulher vítima. Por isso, a denúncia é tão importante, assim como a acolhida. A Coordenadoria da Mulher atua na prevenção, com palestras educativas, sempre com o objetivo de mudar o pensamento de que alguém "gosta de apanhar" ou que "mereceu"; e também no auxílio, com abrigo e ajuda profissional. Isso para que a mulher possa se restabelecer, retomar a sua autonomia.
De janeiro de 2018 a fevereiro deste ano, 1 243 mulheres foram atendidas. Os dados foram apresentados pela titular da coordenadoria, Cândida Navarro. Mais do que número, ela detalha à reportagem do Folha do Sul  como ocorre o encaminhamento para a casa abrigo, um espaço sigiloso, que representa para as mulheres uma chance diante de um perigo iminente. Também fala sobre os desafios da rede de proteção e alerta sobre os primeiros sinais de um relacionamento abusivo. Emocionada, ela fala sobre três casos que marcaram a equipe multidisciplinar: em 2017, uma mulher denunciou que foi vítima de cárcere privado durante 19 anos. O que aconteceu com ela poderia até ser confundido com um roteiro de filme, mas como comenta Cândida, "é a vida real", e acontece todos os dias, em todas as cidades e não escolhe classe social. 
A família vivia na zona rural. Além do casal, três filhos. Ela trabalhava no tambo, na hora, e quando volta para a casa, precisava enfrentar a crítica do marido, por vezes, bêbado, quanto à qualidade do serviço que fazia. Mas ele não apenas criticava, agredia fisicamente, diariamente. Conforme lembra Cândida, ela não comprava calcinhas, shampoo ou absorvente. Aos 36 anos, viveu a juventude em uma verdadeira escravidão, como define a coordenadora.  Contudo, foi a vítima quem conseguiu acabar com a situação. E isso ocorreu no dia em que um dos filhos foi agredido, o mais velho, já adolescente. Cândida comenta que o jovem confrontava o pai diariamente, na tentativa de defender a mãe. Quando a agressão ao adolescente deixou de ser moral e psicológica, e passou a ser física, a mulher enfrentou o medo, pois maior era o de perder o filho.

Pela estrada sem rumo
Os dois, mãe e filho, esperaram o agressor cair, bêbado e conseguiram tirar dele o telefone celular. Saíram pela estrada, sem rumo. E o menino conseguiu ligar para um número de emergência, o 190. A Brigada Militar foi até eles. A mulher permaneceu seis meses no abrigo. O homem não foi preso, fugiu. A advogada da coordenadoria descobriu que tudo o que a família tinha estava no nome da mulher. Ela possuía carro, gado, e agora o caso está na Justiça, para que ela possa receber tudo o que tem direito. Mas e a família desta mulher? Cândida explica a complexidade que é a violência doméstica, e o quanto é preciso combater o pensamento de que "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher", ao falar, justamente, sobre este caso, que tanto a marcou.
Acontece que o agressor nem sempre se mostra logo no início da relação. Primeiro, por vezes, afasta a família da mulher, seus amigos. "E eles pensam que o casal está bem e cada um vai cuidar da sua vida. Ou estão vendo, mas não 'metem a colher' e assim ele (o agressor) controla, cerceia a liberdade", explica, ao ponderar, especificamente sobre o caso, que na zona rural a distância tornou tudo mais difícil para a vítima.
Cândida elucida que a agressão é praticada por aqueles que a vítima mais ama, ou quem a deveria proteger: é pelo marido, ou pai, avô, tio, irmão ou cunhado. Outro caso exemplifica justamente isso. Um pai abusava de uma jovem desde que ela era criança. Ela só foi denunciar o homem quando já era maior de idade. E isso só aconteceu quando ela percebeu que a irmã mais nova estava sendo abusada também. "Foi algo muito sofrido para nós (a equipe), ver a dor daquela menina", comenta. Outro caso também envolveu pai e filha. A jovem dormia com a mãe, deficiente física, e o pai exigia que ela se levantasse, à noite, para ir até outro cômodo para que ele a abusasse. Ela chegou ao espaço de acolhimento, lembra Cândida, "destruída emocionalmente".
Segundo relata, a vítima carregava a culpa por aquela violência, "porque ela usava um shortinho". Cândida, ao relatar tal pensamento da jovem vítima, comenta que isso é bastante comum e é cultura, e por isso reitera a importância da educação. "Ela não levantava o olhar para conversar conosco, o tempo todo chorando", lembra.
"Nós precisamos trabalhar com a prevenção. Temos agendadas 40 palestras até junho e é pouco. Nós queremos falar com todas as idades, com as famílias, com os professores e em todos os espaços. E queremos colocar para as mulheres que temos que ocupar os espaços de poder. Não para submeter, mas junto com aqueles homens que já entenderam que quando a gente caminha junto, mesmo sendo diferentes, o resultado é a paz", argumenta.
"Precisamos tratar isso muito internamente nas pessoas, nas relações. Avaliar como as crianças estão convivendo no coletivo", defende, enfatizando que é a partir da educação equivocada de papéis do homem e da mulher que a cultura da violência se fortifica. E Cândida lembra que o casal que vive uma violência passa esse modelo para os filhos. "E os modelos vão se repetir. São exceções honrosas e não podemos contar com elas. Precisamos trabalhar com educação e cultura: desmistificar que a mulher gosta de apanhar, que ela provocou, que ela quis", argumenta. 

O acolhimento e a proteção
Romper o ciclo da violência é um processo solitário, como define Cândida. Muito é "pesado" pela mulher: alimento, moradia. "E não é só a questão econômica. É a família, que afirma que ele (o marido) é tão bom", pontua. Na maioria dos casos, segundo a profissional, a mulher apenas denuncia e busca proteção quando o homem direciona a violência para os filhos do casal. "E é muito sofrido, porque ela idealizou uma relação de amor, uma vida com respeito e carinho. Deixar para trás um sonho é muito difícil", argumenta, sobre os desafios que cada uma delas precisa encarar. E é por isso que a rede precisa oferecer toda a atenção e proteção que a vítima requer.
O direcionamento para a casa abrigo é determinante para que a mulher possa retomar a vida. O encaminhamento ocorre diante de um risco iminente. Quando a vítima faz a denúncia, seja para a Brigada Militar, Delegacia de Polícia de Pronto- Atendimento ou na Delegacia da Mulher, são esses profissionais que a encaminham conforme a necessidade e o risco. É claro que ela precisa manifestar o desejo de apoio (muitas não vão adiante). A coordenadoria oferece todo o atendimento psicossocial e jurídico, e a vítima passa por avaliação médica quando necessário. Com a medida protetiva expedida, ela é levada até o abrigo. Quando tem filhos, eles permanecem com ela, se crianças. Os adolescentes - maiores de 12 anos - são encaminhados para a casa de acolhimento específica.
Na casa abrigo, elas têm à disposição quarto, sala, cozinha, pátio e recebem acompanhamento psicossocial, jurídico, tudo para que vá se autolibertando, para que consigam superar a "sensação de luto, de perda, o sofrimento". Não há um período máximo de permanência. As crianças, por vezes, são encaminhas para escolas diferentes das quais frequentavam. O endereço do abrigo é sigiloso e constantemente muda. Atualmente, duas mulheres estão no local. Em média, garante Cândida, elas têm ficado de 30 a 60 dias, mas já houve casos em que permaneceram seis, oito meses, e até um ano ou mais. Duas estão abrigadas. "A ideia é sempre que não fiquem muito tempo", elucida. "Mas sempre depende da situação de vulnerabilidade, do tempo que leva para a retomada de sua autonomia", acrescenta.
Se a mulher trabalha - são poucos os casos -, ela tem direito a licença, afinal não pode ser exposta. A Lei Maria da Penha garante isso, o afastamento do local de trabalho sem perder a vaga de emprego. Se necessário, a mulher e os filhos se mudam até mesmo para outro município. Bagé não registrou casos assim, mas costuma, sim, receber vítimas de outras localidades. Em 2017, por exemplo, uma foi encaminhada para Bagé após o companheiro matar o filho dela de 16 anos. E ela, lembra Cândida, sobreviveu a facadas, fogo e até mesmo agressão dentro de um hospital. Para se ter uma ideia, veio para Bagé na ambulância.
O trabalho da equipe multidisciplinar da coordenadoria prossegue até mesmo após de uma vítima deixar a casa abrigo. A rede de proteção tem um grupo onde monitora mais de 300 mulheres. E esse grupo já salvou vidas. Por meio dele, uma mãe denunciou o agressor da filha e uma vítima pediu ajuda. Cândida também destaca o trabalho incansável da Patrulha Maria da Penha. "Trabalhamos diariamente juntos. São dedicadíssimos", afirma. Questionada se tudo isso é motivado pelo amor ao próximo, ela define: "Porque é a vida de uma mulher e é uma família". 

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