Bagé / RS, Domingo, 20 de Janeiro de 2019
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Tradição é mantida entre recordações, saudades, histórias e lágrimas

Armazéns resistem ao tempo e modernidade

por Márcia Sousa

Em meio ao avanço da modernidade, e do advento dos grandes e pequenos supermercados, os velhos armazéns, bolichos ou botecos ainda resistem ao tempo. Eles estão encravados na periferia da cidade, com suas histórias e as marcas do tempo que não se apagam. Numa original 'mistureba', esses estabelecimentos comerciais abrigam de tudo, tais como: ferrarias; antigas máquinas de plantar; chaminés; penicos; baldes; ração; quirera; material de pescar; itens típicos dos costumes de épocas passadas; gêneros alimentícios, bem como a clássica mortadela típica dos botecos e o charque.
A reportagem do Jornal Folha do Sul visitou dois desses lendários bolichos, que ainda mantêm vivos os costumes de outrora, inclusive, uma das raridades em tempos atuais - o famoso caderno à moda antiga - com os nomes dos fregueses que compram fiado. Sim, essa tradição ainda se mantém, pois existe quem ainda deposite confiança na fidelidade do bom pagador.
São estabelecimentos que não sobrevivem com o que vendem, como aconteceu em outros tempos. Eles vendem basicamente miudeza e gêneros alimentícios a granel -itens para quem teve que correr ao bar, em busca do que faltou para completar o almoço ou o jantar. Para os mais velhos, esse locais são um retorno ao cotidiano de antigamente; para os mais jovens, eles guardam novidades que não fazem mais parte dos tempos modernos.

Tem de tudo um pouco
Na rua Barão do Itaqui, próximo à estação Rodoviária, o Armazém Martins funciona há 63 anos. Logo na entrada se percebe, pela estrutura do prédio antigo e as gôndolas quase vazias penduradas nas paredes, que ali já funcionou um shopping ao estilo antigo. De trás do balcão, surge uma senhora esbelta e falante, nos altos dos seus 88 anos. É dona Maria Inês de Quadros Martins, que, desde os 18 anos, está à frente do estabelecimento, que até hoje tem como maior cliente o homem do campo, como ela diz: “lido muito com pessoal de fazenda”.
Assim com o armazém, esses clientes do interior ainda mantêm os costumes de antigamente, como, por exemplo, usar penico, mais conhecido como urinol, que pode ser alouçado ou esmaltado. Dona Maria disse que tinha dúzias deles, porém, o último foi vendido há três dias. Questionada pela reportagem se ainda tem gente que faz uso desse utensílio nos dias atuais, ela responde com outra pergunta: “mas como vão ir no mato à noite? Tem que usar”, retruca.
O Armazém Martins ainda tem essa 'mistureba' saudável de todo tipo de produtos. Disputam espaço lado a lado: queijos; charque; ração; quirera; rapaduras; sapatos; roupas; velas perfumadas; ferrarias; parafusos de todos os tipos, além de outros itens típicos de bolicho.
Aliado a toda essa diversidade, sobrevive o caderno com os nomes do fregueses que compraram fiado. “Aqui, pobre e rico sempre foi tudo igual. Como o povo de Bagé não existe melhor”, se derrama em elogios a dona do armazém.

“Eu vi pobreza”
Quando o assunto envereda para o lado humano, dona Maria fica mais introspectiva ao confidenciar que ajudou muita gente. Ela destaca que muito fiado fez para auxiliar famílias necessitadas. “Eu vi muita pobreza e ajudei muita gente”, recorda.
Para manter o estabelecimento com as portas abertas, já que fiava bastante e não recebia, a idosa tinha que incrementar a renda como costureira. Ate hoje, ela mantém o gosto pelo tricô. Inclusive, quando a reportagem chegou, ela estava tricotando uma blusa.
Além de ajudar os outros, ela conta que também ouvia muito os problemas de quem frequentava o balcão do armazém. Contudo, uma peculiaridade diferencia esse bar dos demais. Dona Maria não vendia e não vende bebida alcóolica para o freguês beber no balcão. Portanto, diz que dor de cabeça com bêbados nunca teve.

“Canha e balcão”
Em frente ao antigo Lar Santo Estevão, no bairro Santa Flora, localizado bem na esquina, tem um bolicho que é referência na região há 66 anos. O local não tem nome. O espaço guarda resquícios dos costumes do passado que ainda se mantêm vivos atualmente. No balcão, pendurados estão os copinhos – os conhecidos martelinhos. Ao lado, uma balança velha que se mantêm na ativa.
Atrás do balcão, uma mulher mais jovem - é Cláudia Torbes Salinas, 41 anos. Ela é nora da proprietária do estabelecimento, dona Santa Catarina Soares, 70. Quando a reportagem diz o objetivo da visita, Cláudia vai atrás da sogra, que não atende mais no balcão. Depois de alguns instantes, surge de uma porta ao lado, uma senhora um pouco tímida. Contudo, ao saber que a conversa era sobre a história do bar, ela ficou mais solta, momento só de recordações e muita emoção do que foi o passado.
Dona Santa não tem lucro com o que vende hoje, porém, mantém o estabelecimento comercial por tradição, por ter se tornado uma referência no bairro. “Ninguém bate aqui que não saia servido”, diz orgulhosa.
A idosa veio de Lavras do Sul para Bagé aos 4 anos  – o pai dela era carroceiro. “Ele era muito pobre”, conta.  Junto à mãe, ao longo de todos esses anos, Santa Catarina sempre trabalhou no balcão. Mais do que vendedora, foi psicóloga de muita gente, principalmente das lamúrias daqueles que passavam da conta num copo de bebida. Ela comenta que bêbados caiam na porta do bar, pelo lado de fora, mas que os levantava e levava para dentro de casa. “Eu era uma psicóloga. Sentia a alegria e as tristezas dos outros; alguns se entretiam e não me pagavam”, diz numa misto de saudosismo.
Sobre os bebuns que frequentavam o estabelecimento, dona Santa relata que já morreram todos. 

Uma vela bota tudo abaixo
Enquanto conversava com a dona do local, a reportagem vasculha as prateleiras, e no alto de uma delas, avista um solitário penico de plástico - um dos itens mais típicos de bolichos - assim como uma máquina de plantar grãos, dois exemplos quase em desuso hoje.
Assim como dona Maria, Santa Catarina, que muito vendeu fiado, teve que dar aulas para manter o bar com as portas abertas.
Há cerca de 20 anos, ela perdeu tudo em um incêndio. A mãe de dona Santa acendeu uma vela para Santa Catarina, porém, num descuido acabou pegando fogo numa toalha de crochê e as chamas se alastraram, atingindo o estabelecimento. O fogo reduziu tudo a cinzas. A proprietária teve que reerguer tudo.
Entretanto, segundo Santa Catarina, foi atrás do balcão que conheceu o amor de sua vida, João de Deus Bittencourt, 82 anos.
Mesmo sem lucro nas vendas, a idosa diz que mantém o bolicho por tradição e por conhecer todo mundo que nasceu no bairro. “Se saio daqui eu morro”, diz.
Mas antes disso, ela faz uma revelação – confidencia que não conhece o centro da cidade e que tem sonho de conhecer um grande supermercado de Bagé.

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