Bagé / RS, Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
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Jovem transexual surda transpõe barreiras do preconceito e desinformação

Conscientização, superação e diversidade

por João A.M. Filho

Pietra Simon Ávila Jardim, 19 anos, pode se considerar uma vencedora. Nascida e abandonada pela mãe biológica nos primeiros dias de vida, foi adotada após ser encontrada na rua e levada ao hospital. Foi lá que a enfermeira aposentada Adriane Ávila Neto, 51 anos, viu a criança e tomou a responsabilidade de cuidar e zelar pela vida que fora deixada ao relento. A jovem, que cresceu portadora de deficiência sensorial, ainda luta contra a hipocrisia, demagogia, preconceito, intolerância e variados tipos de violência. Pietra concedeu entrevista, junto à mãe, o melhor amigo e a professora e intérprete, para mostrar a trajetória de uma bageense que busca uma vida melhor para si e sua comunidade.
 
Primeiros passos
O primeiro nome dado a Pietra foi João Pedro. Logo nas primeiras fases do desenvolvimento, percebeu-se que a criança não era capaz de responder a estímulos verbais ou vocalizar. Era surda desde o nascimento, sem chances de cura. Começava ali o primeiro desafio da vida de Pietra: aprender a viver em uma sociedade onde a maioria ouve, mas não presta atenção naqueles que possuem limitações. Aos seis anos, ainda João Pedro, entrou na ‘escola especial’, único espaço, na época, em Bagé, destinado ao aprendizado da Língua Brasileira de Sinais (Libras), na Sociedade Espírita Caminho da Luz.
Foi lá que ela conheceu outros membros da comunidade, que, segundo estimativas da associação de surdos, entidade desativada desde 2015, estimou, à época, população de 200 portadores da deficiência sensorial (aproximadamente 0,16% do total). Nos primeiros anos de escola, a jovem conheceu Lucas Panick, 21 anos, também surdo - uma amizade que se estende há 18 anos e que moldou boa parte de suas vidas. A expressividade e a cumplicidade no olhar de duas pessoas que compartilham uma história juntos marcou a entrevista. Mesmo após a mudança, quando João Pedro deu lugar à Pietra, a amizade continuou firme, segundo a dupla. 
Desde que começou a formar a personalidade, Pietra não se sentia menino. “Quando saía para fazer compras com minha avó, sempre queria as roupas de menina. Também experimentava as vestimentas de minha irmã, mas tinha muito receio da reação da família. Nunca me senti homem, sempre nas brincadeiras eu queria ser a menina. Foi após 17 anos que comecei a assumir minha identidade. Era muito confuso, pois eu não conseguia entender o que sentia. Eu estava presa em um corpo masculino”, declarou. Essa descoberta veio aos poucos e causou desavenças dentro da família. “Isso me afastou de pessoas que amo, mas espero que um dia possamos nos reconciliar”, ponderou. 
Adriane, mãe de Pietra, assim como acolheu a criança no nascimento, entendeu o desejo da jovem em assumir a transexualidade. “Ela e minha irmã prontamente me atenderam e apoiaram. Pois além da surdez, eu enfrentava, há anos, o preconceito de ser uma garota presa num corpo de homem”, explicou.
 
Múltiplos desafios
Crescer em um ambiente de ouvintes pode ser ainda mais difícil quando não existe estrutura para atender surdos. Até o nono ano do Ensino Fundamental, Pietra tinha dificuldade no aprendizado devido à falta de comunicação. “Os profissionais não eram preparados para atender portadores de surdez e eu tinha dificuldades em aprender o conteúdo junto a ouvintes. Às vezes, pensava em desistir e voltar para casa”, comentou. 
Ao dar início aos estudos na Escola Estadual de Ensino Médio Carlos Kluwe, a estudante começou a integrar-se com mais efetividade à turma e participar das atividades. “Fui muito bem recebida e foi ali que comecei a criar coragem para falar sobre a deficiência auditiva. Também foi quando comecei a palestrar sobre o tema, além de expressar sobre a transexualidade”, destacou.
 
Intolerância e violência
Imagine-se na condição de sofrer preconceito de não poder comunicar-se e adicione a isso o da sociedade em relação a minorias e outros grupos sociais. Essa é a realidade enfrentada por Pietra todos os dias. “Dentro da própria comunidade de portadores de deficiência auditiva, muitas pessoas já me trataram com desprezo em razão da minha condição como transexual. Melhorou muito, mas continua muito difícil. Às vezes, nem sei distinguir se é pela surdez ou pela sexualidade. Quando criança, era ainda pior”, lamentou. 
Mais de uma vez Pietra fora ofendida, atacada e agredida por homens e mulheres, pela simples condição de ser diferente. “Em uma festa, certa vez, fui perseguida e agredida por um grupo de homens e uma menina. Só fui socorrida quando um casal que estava em um táxi viu. Eles ofereceram carona e me levaram para casa”, contou. 
Outras barreiras enfrentadas por ela são hipocrisia e demagogia: “Muitas vezes, basta olhar para o lado para que a pessoa que recém-falava não ter preconceito começar a comentar com os outros sobre você. Por ser surda, elas acham que não percebemos isso”, disse. 
Atividades corriqueiras para qualquer cidadão podem se tornar um desafio, especialmente quando falta compreensão. Certa feita, a estudante apresentou a identidade social a uma agente pública, na qual já estava formalizada a condição de mulher. Entretanto, a servidora não aceitou o documento e formou-se um tumulto. “Foi um acontecimento traumático para mim, pois se formou uma confusão, e me senti totalmente desamparada. Parece que, às vezes, não nos aceitam pelo simples fato de existirmos”, destacou.
 
Amizade e família
Estudante do curso técnico em agroindústria no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), Panick é o melhor amigo de Pietra desde que eram crianças e acompanhou a trajetória da amiga. Também surdo, ele mostra admiração pela coragem de Pietra. A cumplicidade da dupla ficou evidente durante a conversa. “Somos irmãos e nos apoiamos em tudo”, exaltou Pietra. Panick foi um dos primeiros a dar apoio e ficar ao lado da amiga após ela assumir a identidade de mulher. “Ela, que um dia foi meu melhor amigo, hoje é minha melhor amiga. No início, vi que algo acontecia de diferente com ela. Mas nossa amizade se manteve. Sempre estamos juntos e a apoio totalmente”, complementou. 
Adriane, a mãe, busca auxiliar a filha em tudo. Ela sente a preocupação normal dos pais toda vez que Pietra sai, em razão dos episódios em que a filha foi agredida. “Hoje, a aceitação está muito maior, e só quero que ela viva bem e seja feliz”, disse. 
A professora e intérprete de Libras, que auxiliou na entrevista, Adriana Martins da Silva, acompanha, há cinco anos, os surdos que estudam na EEEM Carlos Kluwe, e é parte atuante na integração entre ouvintes e comunidade de surdos. “Os profissionais e os estudantes querem aprender e querem se comunicar. Estamos evoluindo muito, mas ainda temos muito a fazer”, argumentou a professora.
 
Futuro
Pietra pretende se formar em Direito e atuar como advogada, além de graduar-se em Letras e Libras para trabalhar como intérprete. “Foi muito gratificante quando fui para a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o tema da redação era o ensino de Libras e a integração da comunidade surda aos ouvintes. Temos muitas dificuldades ainda, pois até para comprar algo no comércio fica difícil sem um tradutor”, frisou. 
A necessidade apontada por ela de mais intérpretes é justificável porque, quando precisou acompanhar uma menina surda que estava em atendimento no hospital, teve de atuar como intérprete para que as equipes de saúde pudessem saber qual atendimento era necessário à paciente. “Precisamos de mais pessoas que compreendam e se comuniquem em Libras. No geral, somos somente nós (surdos) que desde os primeiros anos de escola precisamos aprender a língua dos ouvintes. Quanto mais pessoas aprenderem Libras, mais compreensão e menos preconceito teremos”, ressaltou. 
A capacidade de superar a limitação física e se firmar como cidadã atuante são os principais desejos de Pietra. “Tudo que quero é viver e ser feliz, sem preconceitos ou falsa piedade. Sou uma mulher normal. Quero trabalhar e ajudar a minha comunidade. Esse é meu desejo”, finalizou. 

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