Bagé / RS, Segunda-feira, 18 de Maro de 2019
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Bagé: 205 anos | Caderno: Bagé: 205 anos

Olhares sobre a história de Bagé

por Marcelo Pimenta e Silva

Com 205 anos de existência, as origens do município são divulgadas pelo contexto histórico do começo do século 19, época em que o território era disputado pelos impérios português e espanhol.  Pesquisas apontam para o nascimento da cidade a partir de um acampamento militar, sob comando de Dom Diogo de Sousa. Para o desembargador aposentado e pesquisador José Carlos Teixeira Giorgis, o nascimento de Bagé teve, por algum tempo, posições diferentes de conceituados historiadores.
Conforme Giorgis, João Antônio Cirne, que foi o pioneiro das notícias históricas sobre Bagé, mencionava a data de 17 de julho de 1811, quando Dom Diogo se movimentou para Montevidéu. “As publicações oficiais do Instituto  de Geografia e Estatística, ao contrário, datavam o 11 de junho de 1811 como o dia natal, o que foi adotado por Eurico Salis em sua obra seminal. Mostrando que, nesta data, Dom Diogo não estava por aqui”, registra o desembargador.  Giorgis relata que as diferenças entre as datas para a “origem de Bagé” foram resolvidas no Congresso de História realizado no município, durante as comemorações do bicentenário do nascimento de Dom Diogo de Souza. “Foi quando Tarcísio Taborda, como fruto de suas pesquisas, apresentou o texto da carta que Dom Diogo enviara ao tenente Pedro Fagundes de Oliveira, em que aquele militar entrega a administração daquele povoamento a quem seria nosso primeiro gestor, o qual, vindo de São Sebastião, logo trazia a imagem do santo que acabaria se tornando o padroeiro, dia que seria referendado por importantes pessoas presentes ao encontro”, ressalta o pesquisador.
Giorgis destaca que os historiadores costumam qualificar as cidades como tendo origem em acampamentos militares, nas estâncias, no comércio eventual ou presença de religiosos. Em vista da movimentação descrita, atribui-se que a origem de Bagé sedimenta-se na hipótese de “ acampamento militar”. “Sucede, entretanto, que quando Dom Diogo abandonou Bagé, já havia aqui uma pequena povoação, formada por pioneiros que haviam recebido doações, e outros oriundos das capitanias e sesmeiros, entre outros, a que se aliaram, também os doentes do grupo militar, todos identificados após as medições de José de Saldanha. Penso que essa situação não foi devidamente discutida, estando aberta à cogitação, o que merece uma avaliação de documentos e testemunhos para, definitivamente, estatuir-se qual a causa da fundação. É verdade que a hipótese de acampamento militar parece, até aqui, estar mais proeminente”, pondera.
Ainda sobre as origens do município, quem também destaca o acampamento militar como fator primordial para o nascimento de Bagé é o jornalista e integrante do Núcleo de Pesquisas Históricas Tarcísio Taborda (NHPTT), Diones Franchi. O pesquisador complementa que o local era um ponto estável para as atividades militares e estratégico por oferecer água aos soldados pela proximidade com o arroio Bagé, além de se estender do atual bairro Passo do Príncipe até a praça da Matriz. “A importância do local se dava por estar perto da fronteira do Uruguai e em em região privilegiada. Ter um lugar habitável garantiria ao exército português o predomínio das terras da região em relação às invasões espanholas”, salienta.
 
Pesquisa em patrimônio cemiterial
 
Quem também integra o NPHTT é a professora Elaine Maria Tonini Bastianello. Recentemente, ela lançou o livro “A memória retida na pedra”, obra cuja inspiração veio do mestrado feito em Memória Social e Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Pelotas. A educadora escolheu como tema, para foco de sua análise no mestrado, o patrimônio cemiterial edificado para ser problematizado. “Com o tema definido, escolhi o cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé como local empírico da pesquisa. Com ela, tive a oportunidade de participar de encontros com a história de Bagé, e, em especial, com o cemitério da Santa Casa, o qual inspirou o livro. Nele, falo da cidade, dos deslocamentos dos cemitérios centrais, da memória pública, étnica e artefactual; enfim, abordo a cidade dos mortos articulada à cidade dos vivos.”, explica Elaine, que cita como fato curioso os rechaços de enterramentos, tanto no cemitério da Santa Casa quanto no das Tunas, localizado no interior de Bagé. Em ambos, a pesquisadora constatou a exclusão do sepultamento no espaço cemiterial. “No caso do da Santa Casa, temos o episódio do José Brunschvig, que morreu no ano de 1877, aqui em Bagé, e a ele foi negado o direito de ser enterrado naquele local, porque, apesar de ser um francês, Brunschvig era um judeu e, naquela época, os católicos negaram o seu sepultamento. Assim, ele foi sepultado fora do espaço cemiterial, e, por ironia do destino, hoje o túmulo de Brunschvig se localiza no centro do cemitério da Santa Casa, nos fundos da capela de fé católica. Já no cemitério das Tunas, onde se encontra sepultado o primeiro intendente desse município, o coronel Antônio Xavier de Azambuja, também aconteceu a exclusão motivada por ideologia partidária e gerada pelos novos proprietários das terras, que se autoexilaram do espaço de sepultamento, criando, ao lado, um novo espaço de inumação, limitado por arame farpado. Ambas as exclusões diferenciam-se pela motivação: uma religiosa e a outra, política”, detalha a historiadora.
 
Fatos desconhecidos
 
Com mais de dois séculos de existência, há inúmeros fatos desconhecidos da história de Bagé. Curiosidades, acontecimentos e personalidades que merecem um estudo mais profundo e detalhado. O diretor do Arquivo Público Municipal Tarcísio Taborda, Cláudio de Leão Lemieszek, ressalta que, quanto mais se lê e se pesquisa sobre a história de Bagé, mais convicção há de que, não levando em conta a rigidez estatística, não foram desvendados nem 40% dos fatos e feitos do município e de seus construtores. “Sem considerar fontes ainda desconhecidas, podemos dizer, sem receio de errar, que até mesmo no acervo de Museu Dom Diogo de Souza e do Arquivo Público Municipal, há documentos intocados. Ademais, muito existe a ser investigado, já que são inúmeros os lapsos na cronologia histórica de Bagé. Períodos cujas fontes são escassas ou inexistentes”, afirma Lemieszek.
O diretor cita como exemplo de períodos com fontes escassas ou sem registros o que se deu durante a Guerra Cisplatina (1825/1827), quando Bagé apenas engatinhava como pequeno povoado. Nessa época, o exército uruguaio-argentino, comandado por Carlos Alvear, invadiu Bagé, e os soldados de Lavalleja saquearam a vila e queimaram toda a documentação da igreja São Sebastião, cita o diretor do Arquivo Público, que reitera que, nessa ocasião, muito se perdeu sobre os primórdios do município.
Ainda sobre o cotidiano da cidade, conforme Lemieszek, são inúmeras as lacunas em decorrência  da inexistência de jornais em períodos importantes como a década de 1870 e boa parte da década de 1880. “Basta dizer que raras são as referências sobre as reações de políticos e da população por ocasião da Proclamação da República. A própria documentação oficial do Executivo e do Legislativo bageense sofreu, ao longo dos anos, perdas significativas (pelo descaso ou descuido) tornando, desta forma, impossível a comprovação dos encaminhamentos políticos e das realizações administrativas, o que nos obriga à montagem de um dificultoso quebra-cabeça”, comenta.
 
 
Divulgação do conhecimento

Giorgis pondera que, com a morte de Tarcísio Taborda, em 1994, houve uma quebra na rota que havia traçado para propagar ainda mais a pesquisa sobre a história da cidade. “Pois seus seguidores ficaram perplexos e feridos com o desaparecimento do mestre de todos nós. Passado o luto, assistimos a um esforço de revigoramento da narrativa sobre os nossos fatos. Um grupo expressivo se destacou, publicando obras, realizando palestras, escrevendo artigos. Destaco aqui o Núcleo de Pesquisas Tarcisio Taborda; posteriormente, a adesão de professores da Unipampa, em vista de cursos ali criados e, finalmente, a nova face do curso de História, da Urcamp. O que entusiasma é o acréscimo de novos talentos”, salienta o desembargador, que pondera que um maior conhecimento da história local carece da existência, em nossas escolas, especialmente as municipais, de uma disciplina específica que oriente as novas gerações e se incorpore no currículo.”Houve uma época em que a Secretaria Municipal de Educação chegou até a editar uma pequena história de Bagé, e o Tarcísio, alguns opúsculos sobre o brasão, a bandeira, o hino e outras informações. Então, já que se está vivendo um momento rico, almejo que outros e inspiradores intelectuais, mesmo de outros ramos, venham adicionar mais tijolos neste edifício tão relevante”, enfatiza.
Já o diretor do Arquivo Público  também destaca a importância do trabalho do historiador Tarcísio Taborda, que, ainda na década de 50, começou a armazenar materiais que relatam a trajetória da cidade, além de despertar, na comunidade, a importância da necessidade do cuidado com a preservação documental. “Hoje, cada vez mais, os gestores dos mananciais históricos, e, muito importante, a população, têm maior consciência sobre a necessidade de preservarmos toda documentação existente. E não me refiro unicamente a documentos, cartas, fotos, tiras de papeis e objetos existentes sob a responsabilidade do poder público. Incluo, muito especialmente, o material guardado no âmbito familiar dos bageenses”, ressalta.
Em relação à transmissão da história local, Lemieszek aponta que os festejos do bicentenário de fundação de Bagé despontaram a sede pela nossa história, fazendo com que a população se interessasse profundamente pelo estudo de suas raízes, crescimento e desenvolvimento de sua terra. “Uma das felizes consequências desse fato foi o significativo aumento nas doações para o Arquivo Público Municipal e Museu Dom Diogo de Souza, também sentido no número de visitantes. O funcionamento do curso de História, da Urcamp, é pedra angular na transmissão e produção de estudos históricos, não esquecendo a importância da chegada da Unipampa, Uergs, Ideau, e outras instituições culturais mais antigas como o Núcleo de Pesquisas Históricas, Cultura Sul e outras, que são agências de produção inesgotáveis”, conclui.

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