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José Brasil Teixeira | Porto Alegre/RS
Coluna: Opinião
Opinião

Velhos cheiros, gostos e feições

É impressionante e notável a capacidade do cérebro de armazenar informações, bem como a maneira de esses mesmos dados balizarem o comportamento humano e suas mais variadas reações. Assim, desde o nascer e até antes, tudo o que nos chega por meio dos órgãos dos sentidos, representados pela visão, tato, gosto, olfato e audição (e talvez até percepções extrassensoriais) é armazenado em lugares específicos do encéfalo, na forma de uma memória para cada modalidade de sentido, que pode, em determinadas circunstancias, ser acionada de forma tal que forme um conjunto. Por exemplo, o aspecto, o cheiro e o gosto de um carinho ou palavra suave formam um conjunto. Uma confirmação desta assertiva está no modo inicial de como as informações são analisadas. O que se constata na observação que fazemos de uma criança de poucos meses e seu comportamento em relação a um pequeno objeto. Inicialmente, a criança é atraída pela visão e nesse momento memoriza o aspecto; a seguir pega o objeto e o manuseia, fazendo o reconhecimento pelo tato. O objeto é um chocalho, ela sacode e descobre seus sons, que também são armazenados na memória encarregada da audição; ato contínuo o leva à boca, onde faz o reconhecimento pelo gosto do objeto, que se tiver cheiro peculiar, nesse particular também é investigado. A  partir desta resumida experiência o chocalho já estará devidamente investigado, restando saber se o conjunto todo é agradável à criança ou não e tudo será memorizado, associado também à emoção de gosto ou não gosto de tal informação. Esse singelo exemplo, que por certo todos hão de entender, representa o modelo de como tudo funcionará no comportamento do indivíduo durante toda a sua vida, nesse particular e na vida de relação com o ambiente. Um outro exemplo mais amadurecido, nessa mesma criança, se prende ao fato do primeiro sorriso, geralmente brindado à mãe. Acontece que a criança reconhece nela uma figura já experimentada e memorizada de muitas formas agradáveis, que há um bom tempo lhe amamenta, lhe aquece e o manuseia de forma confortável e sem riscos. Por isso, depois que o bebê atinge uma certa maturação do seus neurônios, a ele oferece o primeiro sorriso que, nada mais é do que a manifestação de uma emoção positiva.
 Lá adiante quando essa criança estiver frente a dois objetos, sendo um deles aquele chocalho, cujo reconhecimento está esgotado, ao lado de outro que lhe é novidade, deixará o primeiro de lado e repetirá a mesma experiência com o desconhecido. E assim sua memória terá sido enriquecida de mais informações, as quais de lá nunca mais sairão e sempre à disposição para futuras comparações. É o princípio da memória e do aprendizado. Com as feições das pessoas será a mesma coisa, o aprendiz vai se familiarizar com o rosto do pai e dos irmãos. Para as visitas não sorrirá no primeiro contato, mas se a visita tiver o rosto parecido com o da mãe, do pai ou dos irmãos, dos quais já têm registro, ou mesmo a voz parecida, ao analisar essa visita a criança se dirá - "já tenho registros"- e sorrirá para ela com mais facilidade. Ou seja, depois de familiarizar-se.
Esse processo se prolongará por toda a vida enquanto o cérebro tiver capacidade de armazenar com a mesma eficácia, a qual decai com a senilidade. E serão bilhões de informações ao longo do tempo, que serão usadas quase na sua totalidade de forma inconsciente.                    
Ainda, tomemos, por exemplo, a simpatia que é dedicada a uma determinada pessoa. Porque somos atraídos por alguém de forma inexplicada, apenas pela sensação agradável que nos é transmitida desde um início? E, tal fato, por demais frequente, que pode surgir num primeiro contato (visual), depois de uma conversa
(a audição do tom de voz) ou mesmo depois de reconhecer nessa pessoa traços de personalidade (a sensação de segurança, por exemplo) ou até mesmo o conjunto todo. Essas novas informações serão mandadas à comparação de dados prévios sem participação da consciência, a qual poderá ser ativada mais adiante. Um exemplo: Ah! Dona Fulana é parecida com minha primeira professora! E daí nasce a simpatia. Com a antipatia é o mesmo mecanismo, apenas as comparações são feitas com pessoas e sensações desagradáveis.
O nosso cérebro é povoado de memórias e, depois de um certo tempo, muito pouca coisa constitui novidade pura e a maneira como acontecem as contínuas reações entre o que entra e o que já está no arquivo, que serve de modelo, é uma das grandes balizadoras do nosso comportamento, de nossa conduta e nossa personalidade. Assim, um bife pode ter o mesmo aspecto, o mesmo cheiro e o mesmo gosto dum bife conhecido há tempos, formando um conjunto igual ao que sua bondosa avó fazia na sua infância. Então, você o comerá com o maior prazer. Mas, se a sua relação com a mesma avó não era lá essas coisas, comerá o mesmo bife, o achará bom, porém, com algumas restrições. Podendo ocorrer esse episódio de forma consciente, com a identificação de episódios ou inconscientemente.
É comum escutarmos uma música que nos produza uma sensação que não é bem consciente e identificada, mas sem uma definição precisa no tempo e suas memórias conjugadas. Sabemos que a melodia nos é conhecida e parece até que no julgamento seguinte ela está carregada de certa nostalgia, talvez. É provável que esta velha melodia esteja ativando lembranças lá do seu fundo, coisas boas do passado, uma forte emoção indefinida, acompanhada da verdade de que aquele tempo não lhe voltará jamais. Você já sentiu isso?
Pois foi fazendo estas observações e analisando as memórias e as repercussões ocasionadas no indivíduo quando trazidas à tona, que Sigmund Freud elaborou as teorias da psicanálise, a qual tanta luz trouxe ao conhecimento da alma humana e tantas abordagens terapêuticas permitiu, revertendo na cura de inúmeras neuroses e psicoses, até então de causas desconhecidas e incuráveis.
Simplificando, tudo o que lhe ocorre hoje de alguma forma já lhe aconteceu antes em igual ou em outra gradação, as experiências novas são poucas e mesmo assim quando ocorrem são analisadas em comparação e à luz de episódios semelhantes de seu arquivo cerebral, que as aceitará ou rejeitará, que serão agradáveis ou não, modulando a personalidade. E, nesse modo de funcionamento da memória, os computadores são uma genial cópia da mente humana, apenas eles não têm prazer nem desconforto, nem desenvolvem neuroses, porque lhes faltam as emoções.

Texto revisado pelo autor.

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